A agenda setting e a nova ordem da comunicação.

Em 2010, escrevi um texto sobre o agendamento das redes sociais durante as eleições presidenciais entre Dilma e Serra. 5 anos após esse texto, podemos observar que aquela análise, de um momento das redes ainda em fase de consolidação, já indicavam o caminho onipresente que elas teriam em nossa vida. 

Vale a pena dar uma lida e fazer um rápido túnel do tempo. 
José Henrique  Westphalen
Mestre em Comunicação Social.

A agenda setting e a nova ordem da comunicação. 

Vivemos em uma sociedade cada vez mais massificada no campo informacional. Existe uma gigantesca imposição de conteúdo dos mass media sobre a sociedade. Reforçando essa condição, uma nova ordem se estabelece e intensifica essa massa de informação: as redes sociais. Se antes apenas os meios tradicionais de comunicação eram as fontes que nos transmitiam o que iríamos tratar, a nova ordem mudou essa configuração. A chave-mestra do agendamento, que não está em moldar nosso pensamento, mas sim, pautar sobre o que nós iremos pensar é talvez hoje, o tema de maior importância nos estudo de comunicação e, ao meu entender, o de menor relevância dentro da academia.

A força e a voracidade com que as redes sociais estão agendando a nossa pauta é impressionante. Twitter e Facebook inundam as timelines com opiniões, frases, vídeos e depoimentos sobre os mais diversos temas e em pouco tempo esses assuntos entram para a lista de trending e os tradicionais meios de comunicação (jornais, rádio e televisão) passam a abordar aqueles assuntos, intensificando ainda mais e sustentando essas pautas. Um exemplo disso é a questão do aborto trazida para dentro do debate político. Essa pauta não surgiu de nenhum programa do HGPE (Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral), não foi uma ação de marketing nem uma estratégia de captação de votos, foi uma resposta ao agendamento.

A questão do aborto nessa eleição é um caso explicito do agendamento feito pelas redes sociais, por pessoas ordinárias, que buscavam e repassavam mensagens de apoio e ataques, contra e a favor de seus candidatos. Porém ao lidar com uma tema polêmico, a discussão se tornou pauta dos veículos tradicionais, intensificou o debate nas redes digitais a ponto de interferir nos rumos e estratégias dos dois candidatos que disputam o segundo turno. Dilma e Serra não trouxeram essa questão por livre e espontânea vontade, foram compelidos a fazer. Do lado de Serra, uma estratégia de colar o sino de “abortista” na candidata e se postar a favor da vida, para a candidata Dilma coube apenas o papel de gastar quase um mês explicando que não é a favor do aborto e tentar descolar dela essa imagem e desfazer o estrago junto a grupos religiosos.

Segundo a teoria de Adorno e Horkheimer, sobre a indústria cultural, afirmam que a indústria encarna e difunde um ambiente em que a técnica arremata poder sobre a sociedade reproduzindo e assumindo o poder econômico daqueles que já dominam a sociedade. Afirma-se também que nesse processo de massificação é eliminada toda a possibilidade do indivíduo consumir a cultura de maneira contestatória. Contudo, o que podemos perceber é que essa lógica foi subvertida.


Ao contrario do que os teóricos pregavam, os indivíduos, através das redes sociais possuem autonomia e um forte comportamento contestatório, assumindo suas posições, forçando um agendamento livre dos interesses econômicos e de grandes grupos. O agendamento hoje é através de grupos de interesse pessoal e ideológico e os meios tradicionais de comunicação correm atrás de acompanhar a pauta ditada pelas pessoas comuns e não por grupos de interesse. Essa é a nova ordem da comunicação.

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