Internet, redes sociais e a nova ordem democrática

Vivemos cercados por tecnologia. Ela é tão onipresente que praticamente se tornou uma órtese, extensão do nosso corpo, algo que acoplamos para ir além dos nossos limites e que não faz parte do nosso DNA. Nós não nascemos com essa tecnologia ou a extraímos da natureza; ela é, na verdade, algo que transformamos para ampliar nosso alcance e facilitar a nossa vida. Cada tecnologia que vem ao mundo, muitas vezes sem a intenção consciente do desenvolvedor, expande nossos limites e abre um novo mundo de possibilidades, tornando possível o que era impossível. Muitas vezes, essa tecnologia criada com um propósito definido acaba abrindo um leque de diferentes realizações e conquistas.

Os avanços e as criações tecnológicas possuem uma ordem de funcionalidade e disruptividade. Existem as “tecnologias-filhas”, aquelas que expandem nosso limite físico, e as “tecnologias-mãe”, aquelas que nos permitem produzir mais e melhores “tecnologias-filha”. As tecnologias cognitivas, que mudam o status vigente e quebram paradigmas, são “tecnologias-mãe”, pois expandem nosso cérebro. Como a prensa de Gutenberg. O jornal, por sua vez, é uma “tecnologia-filha”. A fala, a escrita, o computador e a internet são saltos cognitivos tecnológicos, são “tecnologias-mãe”, pois tiveram um papel transformador na sociedade. Sem a fala, não teríamos criados as primeiras comunidades e saído das cavernas. Sem a escrita, continuaríamos em aldeias. Sem o computador e a internet, não administraríamos as megalópoles atuais. São tecnologias tão estruturantes que têm o poder de condicionar a mudança da civilização. 

Segundo Carlos Nepomuceno, além dessas duas divisões de ordem, há duas divisões cognitivas:

1) As intermediadoras: que expandem nosso cérebro, porém reforçam o controle das ideias. São aperfeiçoamentos das tecnologias jornal, rádio e tv. 
2) As reintermediadoras: que expandem o cérebro e descontrolam ideias. É o caso da prensa, na Idade Média, e da internet, nos tempos atuais.

Em uma relação de causa e efeito, podemos afirmar o seguinte: uma nova tecnologia cognitiva descontrola as ideias; a partir dela, cresce uma nova diversidade cognitiva; surgem, então, novas percepções da realidade; em seguida perspectivas inovadoras são formadas; e, por fim, novas organizações são necessárias.

Hoje, estamos vivendo o ápice do descontrole de ideias causado pela revolução cognitiva da internet, uma tecnologia reintermediadora, com poder de condicionar fortes mudanças na sociedade, e das suas tecnologias intermediadoras. A internet e as redes sociais foram as grandes responsáveis pelo surgimento de manifestos democráticos em todo mundo, como a Primavera Árabe ou os protestos contra a corrupção de 2013, no Brasil. Sem contar as pequenas revoluções cotidianas, que, graças à internet, estão mudando o centro de poder e colocando nas mãos das pessoas e entidades intermediárias o suprimento das lacunas que o Estado não preenche. Esse cenário vai possibilitar o auge das mudanças cognitivas, quando as formas de representação política e de governo serão alteradas para sempre.

Segundo Robert Dahl, existem diferentes estágios democráticos e, por isso não se pode generalizar a democracia. Dentro desses estágios, surgem as poliarquias, regimes que foram substancialmente popularizados e liberalizados, isto é, fortemente inclusivos e amplamente abertos à contestação pública. Isso implica em um aumento das funções representativas, passando a serem exercidas não apenas pelo parlamento e governos, mas por toda uma ampla rede de organizações sociais. Assim, a república, com seu sistema de rodízio entre líderes-alfa, mantém-se até os dias atuais. 

Porém, sua estabilidade tem, no ano de 1990, com o início da popularização da internet, o primeiro indício de uma nova revolução cognitiva. Foram 600 anos para isso ocorrer, um tempo curtíssimo em termos históricos, porém, um salto de 7x no crescimento populacional, de tecnologias intermediadoras e reintemediadoras, que possibilitaram o surgimento das grandes cidades, da expansão do nosso cérebro e dos limites. A democracia, ou poliarquia, possibilitou a solidificação das liberdades individuais, do direito à livre manifestação e à contestação. As redes sociais, tecnologias intermediadoras, são uma realidade por conta desse processo histórico, pois elas reforçam o controle da ideia de liberdade de expressão e livre manifestação. 

Google, Facebook, Youtube, 99 Taxi, Uber, Estante Virtual e Mercado Livre são tecnologias intermediadoras, que nos mostram que as organizações tradicionais não mais respondem aos anseios e entravam o crescimento da qualidade de vida. Pior, não conseguem enxergar isso, por falta de conhecimento, preguiça ou medo da mudança, e retardam as saídas de uma crise demográfica, de representação e de expansão dos direitos e liberdades, consequentemente prejudicando a qualidade de vida das pessoas. Segundo Maffesoli (2005), o que está acontecendo com os regimes democráticos é uma reação orgânica do corpo social que não se reconhece mais nos seus representantes e busca um novo equilíbrio capaz de traduzi-lo melhor. Existe hoje uma excessiva fragmentação dos interesses sociais, fruto de um processo de diferenciação, onde a própria noção de “bem comum”, vaga e ambígua - defendida por Madison (um dos pais fundadores da república nos EUA) como pressuposto à formação de um corpo político -, perdeu por completo o seu significado numa sociedade cada vez mais fragmentada por distintos e incompatíveis interesses sociais.

O surgimento das redes sociais, como o Facebook, só foi possível graças ao advento da democracia. Só foi possível por ocorrer em um lugar onde essa democracia é exercida por uma ampla rede de organizações sociais, não só pelo governo e pelo parlamento. Não é por acaso que a imensa maioria dessas redes surgiu nos EUA, onde o respeito às liberdades individuais e o nível democrático é mais amplo e plural. Estamos vivendo bem no olho do furacão, na zona calma, onde olhamos tudo ao redor sendo desfeito, mas não nos sentimos como parte dessa destruição de crenças, valores e de como enxergamos as coisas. O que aprendemos – nossos valores, cultura, comportamento e modo de vida – está sendo suplantado nos novos e inquietantes pensamentos. Contudo, não há o que fazer; ou mudamos o “chip”, ou seremos dragados por essa espiral revolucionária.

Quanto aos governos, já estamos vendo na prática que seus métodos e costumes não respondem mais e que suas traquinagens e artimanhas para envolver e dissimular a opinião já não colam. O recrudescimento das opiniões e os comportamentos extremados nas redes sociais por grupos de defesa às minorias, por exemplo, são reflexos de uma sociedade em movimento, na qual os diferentes precisam aprender a conviver. Como os antigos dizem, a noite é mais escura antes do amanhecer. E, quando clarear o dia, com certeza estaremos vivendo em uma sociedade completamente diferente daquelas dos nossos pais. Ou, até mesmo, daquela na qual fomos criados.  


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