Teatro dos Vampiros

Foto: Tribuna do Juruá.


Ao longo de 2015 assistimos cenas dantescas protagonizadas por parlamentares, membros do executivo e judiciário. Embates de arena de gladiadores e discursos inflados sobre a situação econômica do país dignos de uma Ágora. Foram tapas, bofetadas, ofensas pessoais, ameaças no Conselho de Ética, aberturas de CPI e uma infinidade de outras cenas e atos lamentáveis da política nacional que não poderia ter tido outro final senão a sessão do pleno do STF, no julgamento das regras para a condução do processo de impeachment. Sessão a qual o Ministro Fachin requereu, levantando a necessidade de analisar o processo e o rito para o julgamento. Conclusão? Os partidos fizeram seus discursos teatrais, usando o púlpito do STF como palanque eleitoral, encenando ritos, jurisprudência e tudo mais, mesmo sabendo que seria em vão, pois ministro nenhum estava nem aí para o que eles falavam, cada um já tinha seus acordos e votos definidos. Que aliás, a relatoria do Ministro Fachin foi apenas para dizer que estava tudo correto. Porém, dentro da “lisura” do Supremo, seu relatório foi descartado e as regras do jogo mudaram. 
 

Drama ou comédia?  


Estabeleceu-se que será uma Comissão à cabresto, afinal, só precisamos ter os líderes partidários comprados, eles é que definirão que entra e quem sai do palco. E no teatro das forças da política, onde o cenário da Câmara dos Deputados é contrário aos interesses do governo, equilibra-se permitindo que uma nova trupe faça parte: o Senado, agora com poderes para barrar o afastamento da presidente. Tudo no cenário político é ensaiado e repassado, com textos sempre referendados nos interesses políticos e econômicos. Se o STF promoveu seu ato no Teatro Brasil, a PGR também o fez, orquestrando uma batida nas residências e escritórios de Eduardo Cunha no dia da votação do Conselho de Ética, tudo teatralmente cronometrado para constranger a tropa de choque do presidente da Câmara e finalmente destravar o andamento do processo. Tudo pelo interesse político, nada pelo interesse nacional. 

E como está disposto esse elenco?  


A Presidente da República: envolvida no maior escândalo de corrupção da história do país; no cargo através de uma reeleição manchada pelo uso da máquina pública e da manipulação de dados e fatos oficiais, para mascarar a real situação do país e passa por um processo que pode culminar no seu impeachment por improbidade administrativa. Para glamourizar tudo isso, há um ano não consegue governar e aprovar nada, pois não controla o cenário político e goza da pior popularidade que um mandatário já teve nesse país. 

Câmara dos Deputados: terceiro na linha de sucessão, o santinho do pau oco, Eduardo Cunha, joga todas as fichas manipulando o Congresso para se manter no cargo após ter fortes indícios, para não dizer provas cabais, de que é um tremendo de um esperto, pois é “usufrutuário" de milhões e milhões de verdinhas em contas no exterior, ao que se sabe, dinheiro da Petrobrás e da venda de emendas etc.  

Senado Federal: Renan Calheiros, aquele mesmo, que teve um caso com uma jornalista gata, que estampou a capa da revista Playboy e acabou renunciando a presidência do Senado para não ser cassado por envolvimento em inúmeros escândalos de superfaturamento e uso de laranjas para compra de veículos de comunicação. O mesmo Renan que foi da tropa de choque de do ex-presidente Fernando Color é hoje #BFF (best friend forever) da presidente Dilma. 

Uma equipe de apoio de primeira ordem.  


Além dos principais cargos políticos do país estarem maculados, sem nenhuma moral ou crédito, o atual partido governante conseguiu uma proeza nunca antes vista na história desse país:  teve dois dos seus ex-presidentes nacionais na cadeia, seus dois últimos tesoureiros igualmente presos e, por último, um dos principais nomes do partido e atual Senador também está no xilindró. Mas ninguém sabe de nada.
Não menos importante, porém esquecido, temos o grande Palloci, a fênix petista, que no governo Lulla teve de renunciar, ressurgiu fulminante e altivo no primeiro mandato da presidente Dilma e novamente teve de renunciar. Além do filho prodígio do grande líder Lulla (assim mesmo, com dois “L”, para lembrar seu amigo collorido, que aliás, também é governista), envolvidíssimo com suposta participação em lobby para venda de projetos e emendas parlamentares. Na melhor das hipóteses, o menino de ouro é só um idiota mesmo, e será processado apenas por plágio, por copiar um projeto de marketing da internet!

Quantos atos ainda teremos? 

 
No Teatro Brasil não se sabe quem apresentou o primeiro ato, nem quantos serão, só se sabe que está muito longe de acabar. Em um mundo de aparências, as estâncias governantes do país cumprem bem seu papel, exibindo sua cauda e sua pompa embaladas em discursos democráticos e republicanos. Um discurso tão leve, mas tão leve, que um mínimo sopro muda sua direção e apaga memórias, tornando o hoje uma verdade inquestionável, que amanhã são apenas páginas rasgadas dessa triste história Brasil. 

PS: Teatro dos Vampiros é uma música da Legião Urbana, do início da década de 90, que retrata a triste situação econômica do país. 

José Henrique Westphalen

Mestre em Comunicação.  

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