Você é uma imagem na política ou um humano?


Vamos fazer um breve exercício de observação. Qual é a imagem de um político? Esqueça a corrupção e a falcatrua, construa uma persona, com suas características físicas, hábitos, como ele se relaciona com as pessoas nas redes sociais e nos eventos. Você imagina um estilo, eu outro, enfim, cada um de nós forma um desenho mental de como é um político. Eis a minha descrição: 

- Em torno de 50 anos, branco, cabelos levemente grisalhos, um pouco acima do peso, sempre com aquele sorriso fácil e uma mão pronta para lhe dar um tapinha nas costas. Imagino que seja casado, tenha dois filhos, já vem de uma estrutura familiar de boas condições, não possui muitas atividades de lazer, no máximo uma academia pela manhã e uma vez por ano uma viagem com a família. Tem seu nicho de atuação, porém não compra muitas brigas, age sempre como algodão entre cristais. Apesar de ter formação superior e falar algum idioma estrangeiro, sua atuação parlamentar não está focada em grandes debates ou defesas em comissões. Normalmente delega as funções de análise e defesa à sua equipe parlamentar, apenas revisando e corrigindo pontos. Em eventos, passa de mesa em mesa cumprimentando a todos, muitos sorrisos e mais apertos de mãos. Discursa e vai embora. Nas redes sociais, sempre fala sobre o próximo roteiro, dizendo que fez isso e aquilo. É uma agenda pública dos seus eventos e um canal para informar o que está fazendo. 

É assim que eu montaria uma persona de um político padrão, desses que habitam a Câmara e as Assembleias. Obviamente estamos falando da casca, sem conhecer ele profundamente. É um exercício de imaginação, mas acredito que poderíamos encontrar muitos perfis desses por aí.

Uma nova forma de ver um político

Vejamos a diferença, a ruptura da imagem do político tradicional, como o descrito acima, com o que assistimos no vídeo a seguir. Nesse link, https://www.facebook.com/marcel11022/videos/1026506190704623/?theater , o deputado Marcel Van Hatten aparece na Bélgica, em uma bela casa, com sua família, tocando um violino. Comecemos observando essa questão. É uma postagem totalmente íntima, em casa, com seus familiares. Porém, há elementos que nem todos os políticos estariam dispostos a exibir em uma sociedade que cultua a pobreza e a servidão, que vê o oposto a isso como ostentação e símbolo do capitalismo. Na tela, o deputado aparece tocando violino, acompanhado de piano e violão. Quer coisa mais antipopular que violino? Acredito que muitos políticos postariam tocando um pandeiro, embalado ao som de Diogo Nogueira. Indo mais além, Van Hatten está na Europa. Poucos agentes públicos teriam coragem de narrar no Facebook uma viagem de férias pela Europa, uma viagem apenas por diversão. A deputada Manuela D’Ávila esteve nos EUA a passeio e fazendo o enxoval e postou uma única foto. Nada contra, ela tem todo o direito a preservar sua intimidade, porém, há um cálculo dentro de única postagem. É uma parlamentar com laços de esquerda, do Partido Comunista, e certamente não pegaria bem exibir muitas fotos e descontração na terra do Tio San.

Uma "epidemia direitista"

A postagem do deputado Marcel tem absolutamente todos os elementos para uma vanguarda da esquerda fazer a festa em cima. Pode suscitar inúmeros comentários negativos e uma campanha absurda de descaracterização da imagem do parlamentar. Mesmo assim, ele postou. Esse post gerou 25 mil visualizações, 4.3 mil curtidas, 423 comentários e 415 compartilhamentos até o dia 10/01. É uma massa gigante de pessoas interagindo com essa postagem, e boa parte dos comentários que li são positivos.

Essa exposição do humano, do político, que antes de ter um mandato tem uma vida, que tem seus gostos, tem seus hobbies e predileções, não costuma aparecer nas redes sociais. A imensa maioria dos políticos assume um personagem nas redes, construído para ser à prova de críticas. São imagens fracas, compostas para não gerar ruídos. Eis a grande diferença. O deputado Marcel, por tudo que já li e vi, não construiu uma identidade política, ele não buscou entender qual era a preferência do eleitorado e o que as pesquisas indicavam para moldar seu discurso. Ele simplesmente foi humano, foi verdadeiro e transparente em relação a quem ele é e a sua plataforma. É uma forma diferente de conduzir e construir um mandato, especialmente em políticos com ideias liberais e antiestatais. Essa formação de imagem baseada em propósitos geralmente se vê em partidos e parlamentares ligados às esquerdas, como a deputada Maria do Rosário. É um caminho de construção de imagem mais ou menos assim: se tu te interessares, que o siga; se achares que é ruim, tudo bem. Marcel hoje se configura em um parlamentar que não está atrás do voto, ele prepara o caminho para que o voto vá até ele. 

Marketing político x Marketing eleitoral

Em meus estudos sobre comunicação política, há um bom tempo já identificava que a construção de uma persona pública deve ser baseada no marketing político, aquele no qual o que é vendido e disseminado é uma ideia e uma ideologia. Nesse sentido, o trabalho de comunicação a ser feito não é o de adaptar o discurso ao que os eleitores querem ouvir (como no marketing eleitoral), mas o de disseminar uma mensagem consistente, que ao longo do tempo seja capaz de atrair seguidores que se identifiquem com seu conteúdo e se tornem seus disseminadores. O caso analisado é um exemplo, como comprovam os números já citados da postagem. Essa publicação teve um alto poder epidêmico. São pessoas espontaneamente levando uma mensagem, expondo sua opinião sobre aquele tema a todos que tenham os mesmos interesses. 

Mudança nas relações sociais

A sociedade hoje está dividida por preferências, por gostos e por prazeres. Não existe mais uma ideologia reinante, não existe mais o best-seller avassalador, não existe mais uma amálgama que una a todos. E é essa divisão que está destruindo o sistema político como conhecemos e que os políticos tradicionais insistem em manter. As pessoas não se enxergam mais no corpo social e político. As pessoas estão divididas em grupos e comunidades de interesse próprio, com necessidades específicas. Dentro dessa hiper-heterogeneidade, como montar um candidato baseado em pesquisas? Como definir as preferências se elas são múltiplas e variadas? Na falta de uma definição, constroem-se candidatos vazios, que não representam ninguém. Partidos que se aproximam do centro político do eixo ideológico, onde supostamente se concentraria o maior número de eleitores, a fim de se tornarem aptos às preferências da maioria. Mas se a maioria é indefinida, o partido que o representa também será. Representação é tradução. O voto se tornou mais personalista, relacionado às características pessoais do candidato. Embora o sistema político seja baseado em partidos políticos, as eleições cada vez mais são centradas nas imagens e na identificação com as pessoas, não com agremiações. 

Contexto social

Contudo, há algo excepcional acontecendo que proporciona que o deputado tenha esse desempenho: o poder do contexto. Há 8, 10 anos, nas mesmas condições, com a mesma tecnologia, ainda assim Marcel não teria o desempenho que vem tendo, pelo simples fato que o PT, a imagem da esquerda, possuía um discurso era muito forte e dominante. Não havia espaço para propostas alternativas. Hoje não, as condições mudaram, o contexto mudou. Olhe para os colegas de partido do deputado Marcel: qual o nível de engajamento deles nas redes sociais? Não estou dizendo que eles são piores, não é esse o ponto, mas sim o fato de que Van Hatten, por ter posições muito fortes, muito claras e fugir completamente do estereótipo do político tradicional, passou a ter uma relevância maior, uma imagem melhor dentro de um contexto social. E isso sim é o grande diferencial: o poder do contexto. E qual é ele? As pessoas estão de saco cheio da política, não suportam mais olhar para as mesmas caras, os mesmos discursos, as mesmas desculpas, o mesmo comportamento. Eduardo Cunha e Lula, qual a semelhança? Eles nunca souberam de nada, qualquer denúncia, mesmo com fatos, é obra de golpistas que querem derrubá-los. Esse é o contexto. Esquerda e direita são iguais em comportamento político, desculpas e ataque. O deputado, não intencionalmente, conseguiu se encaixar nesse contexto social de forma sólida, pois ele consegue equilibrar opinião, mandato e vida pessoal nas redes, construindo não uma imagem de um político, mas a representação de um ser humano. Muitas vezes, humanos demais. 

José Henrique Westphalen
Mestre em comunicação e provocador digital. 


Comentários