Entre a Foice e a Cruz



Durante toda a era petista no governo federal, o DEM, para incredulidade de muitos, sempre se manteve na oposição. Amargou sofridos 16 anos sendo a única voz na Câmara e no Senado a fazer uma oposição forte e programática. 

Convicção e congruência: essas duas palavras explicam as razões para o DEM ter se mantido firme na oposição. Palavras essas, que a política pouco conheçe. 

Como presidente municipal do Democratas, membro da executiva estadual e 8º candidato a deputado estadual mais votado do partido,  aprendi a admirar essa postura das nossas lideranças. Pois também é a maneira que penso e faço política. 

Esses dias participei do programa "Personagens", do João Veríssimo para a TV Cruzaltense. No vídeo, expliquei que a ciência política é a ciência que estuda o "poder". E somente através do estudo das percepções de poder e do jogo de poder constituído no tabuleiro político de Cruz Alta é que se pode explicar a nova composição da mesa diretora da Câmara de Vereadores. 

Convicção e congruência foram palavras que passaram ao largo, dessa forma, a única explicação é a busca pelo poder pessoal, pois vejamos: 

Unir o PSC, Partido Social Cristão, com o PCdoB, Partido Comunista do Brasil, já seria uma aberração, ainda mais em um contexto em que o vereador do PSC sempre foi o mais feroz adversário do parlamentar comunista. 

Embates fortíssimos sobre ideologia de gênero, valores, família e os ferrenhos embates eleitorais, marcaram os dois primeiros anos desses parlamentares. 

Além disso, no pleito estadual, o vereador do PSC, que era postulante a uma cadeira na Assembléia Legislativa, fez uma campanha muito forte para Jair Bolsonaro, tendo o apoio do PSL, dos agricultores e da igreja, pois tinha um forte discurso contra a esquerda, a favor da família, contra doutrinação e a ideologia de gênero, valores caros aos seus apoiadores.

Sendo eles, adversários inconciliáveis, não consigo encontrar uma agenda comum que os una para formação de uma mesa diretora. 

Ao pensarmos que PCdoB, PSD e PSC estão juntos, sendo que os 3 partidos não possuem representação nos governos que irão assumir (nem estadual, nem federal), não se pode justificar uma aliança para buscar recursos e espaços para o município. Os 3 foram alijados das urnas. 

Por fim, poderíamos imaginar que essa junção fosse fruto de acordo promovido no início da legislatura, justificando tal aberração política, mas não. 

Pelo acordo, que foi jogado na latrina, o presidente do legislativo municipal seria do segundo vereador mais votado do município, o vereador do PSDB, Cléberson Gardin. 

Gardin, além de ter sido o segundo mais votado em 2016, ter sido escolhido por acordo como presidente no terceiro ano legislativo, de quebra, foi o candidato a deputado estadual que mais votos fez em Cruz Alta, confirmando sua representatividade na cidade. 

Dessa forma, ficamos com o seguinte quadro: 

  • Não foi por programa e linha de atuação;
  • Não foi por ideologia;
  • Não foi por afinidade ao governo Estadual ou Federal;
  • Não foi por acordo no início da legislatura.

Com essas variáveis, não me resta outra opção a não ser pensar que foi por um projeto pessoal de poder, visando os benefícios diretos dos cargos em 2019, alianças e projeções para 2020. 

O Democratas de Cruz Alta rejeita e reprova totalmente essa aliança feita para ganhar a disputa da mesa diretora na Câmara Municipal. 

Infelizmente hoje não possuímos representantes no legislativo, mas se tivéssemos, com certeza a convicção e a congruência seriam os nossos nortes.

Que a história narrada acima sirva de exemplo para o DEM de outros municípios, para outras legendas e para a reflexão do eleitor. Discurso precisa caminhar alinhado a prática. Fora isso é demagogia e fisiologismo. É buscar o poder pelo poder.  

José Henrique Westphalen


Comentários