48 horas que abalaram o Brasil.



Cresci ouvindo que um homem para ser completo, antes de morrer, deveria plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Eu acrescentaria um item para quem está na vida política: deixar uma marca, fazer algo tão grandioso que seus feitos possam ser lembrados por gerações. Pouquíssimos conseguem isso. 

O Ministro Onyx Lorenzoni já plantou uma árvore, tem filhos e livros publicados. Apesar de ter uma vida política de enorme sucesso e grandes realizações, nenhuma se compara ao feito realizado nos dois primeiros dias de fevereiro de 2019. Críticas dos adversários e da extrema imprensa não irão faltar, mas mesmo o mais ferrenho opositor, no fundo do seu coração, hoje está brindando o expurgo de Renan Calheiros da mesa diretora do Senado. E esse feito deve ser comemorado, e muito, pois não é um feito qualquer. 

Os grandes líderes do Senado não tiveram coragem de enfrentar Renan, aqueles senadores mais experientes, com grande capital junto aos seus pares, estavam inertes, paralisados pelo medo. O próprio Álvaro Dias nunca levou a sua própria candidatura a sério, tinha Renan como imbatível; Amin estava voltando ao Senado, queria holofotes, não articulou com ninguém e nenhum partido, era uma candidatura personalista. Tebet sabia que Renan a trituraria na disputa interna; Major Olímpio, embora aspirasse de verdade o cargo, sabia que era uma candidatura inviável no momento. 

Renan consolidou seu poder pelo medo. Concedeu favores, guardou documentos, devassou a vida de dezenas de parlamentares e juízes, é um gangster investido de mandato popular. Ao longo dos anos, junto aos seus lacaios, Renan só aumentou seu poder e influência, desde a redemocratização, por breves períodos o MDB esteve fora da presidência do Senado, mas não fora da mesa e do poder. 

Se hoje, o Senado possuí um orçamento bilionário, com inúmeras vantagens, funcionários e salários astronômicos, deve-se ao MDB, deve-se muito ao Renan, ou melhor, eles devem ao país. Além disso, Renan na presidência representava o fim da lava-jato e o país refém de um criminoso chantagista. 

Lutar contra um dos poucos remanescentes do coronelato político, com extremo poder dentro do Congresso, a ponto de desafiar juízes e mudar regras constitucionais a seu entender, não é tarefa fácil, nem para os mais experientes, prova é Tasso Jereissati, roncou grosso com Renan, mas não ousou desafiá-lo no voto. 

Por isto o feito do Ministro Onyx foi tão grandioso. Uma construção política engenhosa, que começou ainda na transição. Lorenzoni identificou o clamor das ruas, que viam em Calheiros a representação de tudo o que mais odiavam na política, além disso, a conjuntura ajudava: maioria de novos no Senado, Davi Alcolumbre era o único senador na mesa diretora que possuía mandato (os outros todos foram mandados para casa) e o medo de enfrentar Renan.  

A estratégia da presidência: 


Para o cidadão comum, não afeito às regras e ao jogo interno do parlamento, a posição de Davi Alcolumbre no dia 1/2/19, irredutível em abandonar a presidência da casa, pareceu prepotência e apego ao poder, mas não, era a única alternativa para salvar o país. Se o senador Davi entregasse a presidência ao Senador Maranhão, como a tropa de choque de Renan bradava, nos seus rodízios ao microfone, o destino da nação estaria selado. Renan Calheiros sabia que sem a força do cargo, sem a força da mesa não conseguiria os votos necessários. 

Na condução dos trabalhos, Alcolumbre largou para o pleno a votação sobre se as eleições seriam com voto aberto ou fechado. Essa manobra escancarou à todos quem era quem dentro do Senado. Por 50 votos contra 2, a maioria absoluta dos senadores pediram que a votação não fosse secreta, uma estratégia que constrangeria Renan Calheiros, fazendo o cangaceiro perder votos, como ele mesmo alegou na tribuna, referindo-se aos votos do PSDB (o voto de Flávio Bolsonaro nunca foi dele, foi apenas uma manobra para constranger o Presidente). 

Renan foi obrigado a recorrer aos seus amigos do STF, conseguindo uma decisão de Dias Toffoli que mantinha o voto secreto. Tiro pela culatra, a manobra do MDB só aumentou a revolta nacional, que olhava atônita as baixarias promovidas por Eduardo Braga, Kátia Abreu e outros capachos de Renan para tumultuar a sessão e suspender os trabalhos, para que ele ganhasse tempo para garantir as chaves do seu reino do crime. 

À essa altura os senadores já conseguiam vislumbrar os novos tempos, o rei estava nu, Renan não era imbatível. A postura de Alcolumbre na condução da bem sucedida estratégia de desmascarar e encurralar a máfia emedebista do Senado fortaleceu o nome do senador, reconhecendo nele a tranquilidade e a liderança necessária para dialogar com o Congresso. No sábado (2), candidato após candidato subia à tribuna para atacar Renan e suas práticas, após, retiravam suas candidaturas em apoio à David Alcolumbre. Estava pavimentada a vitória do Brasil: Simone Tebet, Tasso Jereissati,  Álvaro Dias, Major Olímpio, Randolfe Rodrigues entre outros líderes fechavam questão em torno do democrata. 

Apesar de todas as manobras da turma do cangaço, da máfia emedebista, com fraude nos votos, favorecimento nos tempos de pronunciamento entre outras chicanas, a grande aliança pelo Brasil prevaleceu. Renan teve um fim patético e melancólico, com devaneios sobre transparência, democracia, ética e celeridade, palavras que não fazem parte do seu vocabulário. A participação do Ministro Onyx em toda essa articulação e estratégia teria ficado nas sombras, com algumas reclamações do Major Olímpio, alguns murmúrios de Tebet e uma que outra informação desencontrada, contudo, Renan havia acusado o golpe, ele próprio escancarou que o Ministro vinha trabalhando para a eleição do Senado, que tinha influência direta em tudo que estava acontecendo.  

Renan concede a glória pública à seu desafeto político de anos. Através dos ataques ríspidos e irônicos de Calheiros o Brasil ficou sabendo do feito realizado pelo Ministro Onyx Lorenzoni: expurgar Renan e sua máfia da mesa do Senado. A aprovação de medidas mais pesadas contra corrupção, mudanças na legislação penal, reforma da previdência entre outras, estariam inviabilizadas nas mãos de Renan Calheiros. Onyx, para desesperos de "analistas" como Andreazza, Reinaldo Azevedo e parte da própria direita, ligada ao MBL e ao NOVO, não só venceu no Senado, como consolidou sua força política junto ao governo Bolsonaro, provando ser um estrategista hábil e audacioso. 

Bolsonaro navegará por águas mais tranquilas com um Senado e uma Câmara Federal alinhadas aos projetos de desenvolvimento do governo. Moro e Guedes podem respirar aliviados, sabendo que terão dentro do Congresso Nacional aliados comprometidos com o país. Temos muito pela frente, serão quatro anos de desafios, mas hoje, tivemos a comprovação de que a articulação política está em boas mãos. 

Onyx plantou uma árvore, escreveu um livro e teve filhos. A partir de hoje, pode também dizer, com orgulho, ajudou a livrar o país de Renan Calheiros. 


José Henrique Westphalen 
Cientista Político e Mestre em Comunicação. 

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