Carnaval: a festa do dinheiro público?




Antes de entrar propriamente no texto, importante colocar alguns pontos: 

A) Carnaval faz parte da brasilidade, poucas coisas traduzem tão bem o multiculturalismo do Brasil; 
B) Por convicção, acredito que o Estado (em todos os níveis), não deve colocar dinheiro em iniciativas privadas;
C) O carnaval de Cruz Alta vai receber dinheiro público, contudo, boicotar é fazer a prefeitura pagar duas vezes; 
D) A cidade está mal administrada e com problemas em áreas vitais. 

Um governo, seja federal, estadual ou municipal, possuí algumas obrigações fundamentais, como: infraestrutura, segurança, saúde e educação. Dentro da educação, colocaria dois vetores: esporte e cultura. 

O carnaval é uma festa, claro que é, mas também é uma manifestação cultural. Sambas enredo são construídos em cima da história, com referências sociais, religiosas e econômicas. Inúmeras pessoas trabalham o ano inteiro, voluntariamente, entorno das suas escolas de samba, portanto, carnaval é também, de certa forma, um foco de atuação dos governos. 

Realidade do carnaval, visto por quem não é carnavalesco: 

Promover um desfile carnavalesco é caro, exige uma infraestrutura gigantesca, e não falo apenas dos carros alegóricos, fantasias e componentes, mas de local, banheiros, segurança, acomodações, alimentação etc. Nem mesmo as grandes escolas cariocas sobrevivem sem dinheiro público. 

Por outro lado, o carnaval não consegue pagar suas contas com vendas de ingresso, sequer consegue o suficiente com suas ações ao longo do ano para realizar o desfile, porque há um completo desinteresse por parte da população durante 360 dias do ano. Participei de diversas ações do “ Beco" ano passado, eram sempre as mesmas pessoas envolvidas na organização e sempre as mesmas pessoas prestigiando e financiando. 

Diferente do futebol, que consegue patrocinadores internacionais, premiações, renda de bilheteria, venda de jogadores etc, que torna o emprego do dinheiro público um completo absurdo, como no caso da Caixa Econômica Federal patrocinar o Flamengo, por exemplo, o carnaval não têm essas rendas. E este é outro problema do carnaval em Cruz Alta, há pouco ou nenhum investimento privado nas escolas de samba. O empresário não vê o carnaval como investimento ou um setor a ser explorado por suas marcas, consequentemente, as escolas ficam com fontes amadoras de captação de recursos.

Dois pesos e duas medidas: 

Como o carnaval não faz parte do interesse geral, da tradição das famílias, usar dinheiro público no evento é um absurdo, contudo, a prefeitura não ter investido dinheiro público na ornamentação da cidade para o natal gerou inúmeros comentários negativos.  Por que no natal era permitido o uso de dinheiro público e no carnaval não? 

Pelo interesse pessoal sobre a data. Há época natalina, inclusive vi a manifestação de vários empresários reclamando do não investimento da prefeitura na ornamentação da cidade, bem como nas redes sociais, nos grupos e nos comentários de pessoas que reconhecidamente apontam todas as falhas da administração municipal (e isto é uma coisa boa). Contudo, o que eu não vi foram os mesmos investindo do seu bolso para promover decorações e ornamentações de natal e aumentar suas vendas, como em inúmeras cidades do Brasil. 

E vejam, o comércio não é uma atividade cultural, mas sim, econômica. Porém, se exige dinheiro público para o natal e se condena para o carnaval. Dar dinheiro para o carnaval é muito diferente de dar dinheiro à outras atividades culturais que contam com apoio de marcas, empresas e possuem capacidade de gerar renda. Investir no carnaval é investir em cultura e cidadania. 

Investimento público: 

Muito se arguiu que não tem cabimento dar dinheiro para o carnaval se o São Vicente e a UPA estão em dificuldades. Cabe aqui observarmos que não é o dinheiro do carnaval que irá mudar essa realidade, assim como o dinheiro destinado ao carnaval não irá fazer asfalto, calçamento, esgoto, escola, pagar horas extras etc. 

Com essa linha de pensamento, que concluir com dois pensamentos

1) Não há nada de errado em destinar dinheiro público para o carnaval, dentro da realidade socioeconômica de Cruz Alta, pois sem esse dinheiro, os desfiles e tudo que gira entorno ficariam inviabilizados. 
2) O problema em dar dinheiro ao carnaval nesse momento é o caos administrativo. A cidade possui problemas básicos em todas as áreas chave da administração. 

A prefeitura não cumpre o mínimo desejado nas funções vitais do município. Há um descontrole orçamentário, há uma péssima gestão dos recursos humanos, falhas absurdas em pensar e construir saídas administrativas modernas para os problemas funcionais de Cruz Alta. 

Ou seja, não há mal em colocar dinheiro no carnaval, o problema está em destinar recursos que deveriam ser canalizados para um ajuste fiscal, para prover o mínimo de dignidade ao funcionalismo e a parte mais carente da cidade. 

O problema reside na pobreza do município, na falta de emprego e oportunidades. Essas questões é que fazem o dinheiro para o carnaval ser errado, no momento. Portanto, não condenem o carnaval, prestigiem, ajudem, participem, é somente desta maneira que as escolas não precisarão de recursos públicos. 

Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós, e que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz. 


Comentários

Haroldo Upnmoor disse…
Quem disse que o poder público deve investir em eventos culturais? Em qualquer pais sério essa é uma questão da iniciativa privada. Esse desvio de função é ainda mais grave considerando-se o estado de penúria em que se encontram as prefeituras, deixando de atender obrigações básicas como educação e saúde. Nessas circunstâncias é imoral gastar dinheiro em festas, mesmo populares. Quer festar? Use seu próprio dinheiro!
Unknown disse…
Concordo, o texto do nosso amigo é tendencioso e subjetivo demais. A prefeitura do rio, com atual gestão já investiu em saúde muito mais que outros gestores anteriores, são números. Como também é fator e função matemática a crescente demografia carioca como em outras capitais. Cada vez mais os investimentos devem ser maiores. Como pode-se manter a qualidade sem investimentos ?. Mediante a crise, só fazendo cortes. Não existe mágica a farra com dinheiro público tem que acabar, mesmo que seja os desfiles das escolas de samba.